Hoje retorno a um tempo passado, volto a ser quem não sou mais, sinto o que não mora mais dentro do meu peito aflito, em conflito. Eu não quero mais ser assim, eu não sou mais esse alguém. A letra canta uma canção, mas a melodia dita outra. Estou perdida num compasso que não se encontra, não se harmoniza. O tempo atropela as minhas emoções e me faz uma falsa atriz, que encena o que não sente, o que desconhece, finge as lágrimas que deveras atravessam seu rosto em busca do seu coração.
Desde daquele nosso adeus saí pelo mundo. Percorri caminhos, me desconhecendo conheci pessoas, tentei me reencontrar, mas a única coisa que meus olhos refletiam era o seu olhar. Na verdade, estive em busca de uma tal cura impossível, pois meus sintomas são fixos, ninguém foi ou é capaz de amenizar, suavizar, enfrentar. Meu amor adormece, mas não hiberna. Eu minto pra mim e digo a você que estou apaixonada por aquela outra, você acredita, mas eu não.
O tédio me atordoa com toda essa normalidade, essas mesmas pessoas sem poesia, minha vida se tornou parnasiana demais e eu já não posso mais, não sem ela. Eu cansei de tentar ser feliz me unindo a outro ser, tornar um em dois, preciso aceitar que isso não faz mais parte da minha prateleira de contos de fada. Já chega de tentar enganar meu coração, descobri que Ele é mais esperto de eu.
Eu simplesmente não posso arrancá-la do meu peito, pois ela tem morada em minha alma. Tudo que se remete, se repete, também quer dizer respeito a ela. Quaisquer coisas mais íntimas, eu não preciso dizer, pois da mesma forma fazem parte dela. Eu voo pelo tempo, viajo pelo espaço, percorro pessoas, fujo de mim mesma, mudo quem sou, mas nada é capaz de retirar qualquer partícula de lembrança vivida com ela.
Às vezes escrevendo, tropeço em suas pernas, porque todas as minhas palavras estão atreladas a ela. Sigo por um mundo que não tem fim, porque ela desafia minha ideia de tempo e me dita uma eternidade breve, pois se o amor é eterno enquanto dura, meu amor por ela cria e assombra esse “para sempre”. Tudo me sobra, nada me falta, sem ela não há nenhuma medida razoável, nenhum parâmetro aceitável, nenhuma regra a ser levada em consideração. Meu mundo está vazio e ao mesmo tempo povoado demais, ninguém me basta, todos sobejam, eu vivo sozinha e já não sei qual é o seu cheiro.
- Merlin
Na vitrola: Um branco, um xis, um zero – Cássia Eller