sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Eu Sei

Hoje queria poder dizer
Tudo que sempre morou no meu coração.
Deixar a dor
Dar lugar ao nosso Amor,
Mas sei que já não posso mais.

Me vejo sozinha por meses
Com a sua sombra a penetrar,
Nossas lembranças a me atormentar,
A idéia de te procurar
Jamais me deixou descansar.
Mas sei que já não posso mais.

Eu parei no tempo e mesmo sabendo ser tarde,
Caminho a cada dia 
Para tornar-me o seu ideal de mulher.
De repente, me vejo cumprindo antigos desejos,
Pedidos fervorosos.
E eu me arrepio imaginando como poderíamos ser.
Mas sei que já não posso mais.

Lembro de sua imagem indo embora
E isso ainda me apovora.
Aquele "Adeus"
Nunca foi uma despedida.
Na verdade que queria gritar: - Fica!
Mas sei que já não posso mais.

- Merlin


Na Vitrola: Recado do Tempo - Isabella Taviani

sábado, 15 de janeiro de 2011

Bela Adormecida

A mulher viveu toda sua vida em um dia. Ela que antes quase se entregava adormecida em meio ao tédio do mundo, naquelas palavras viu cor. E as cores reproduziram-se e formaram um arco-íris.
As palavras eram da outra mulher, uma mulher pura, límpida, na corda bamba entre a inocência e a ingenuidade. Uma estava no norte e outra no sul, mas ambas seguiam, prosseguiam, juntas, lado a lado. 
As primeiras palavras multiplicaram-se e refletiram-se em sorrisos, conversas intermináveis, madrugadas no telefone, a sensação de tocas na paixão, fazer amor mesmo em outra cidade, dividir e construir planos, descobrir que ainda pode-se sonhar, ver de perto a possibilidade de amar.
A mulher não via o rosto da outra mulher, via a cor da sua alma. A distância tornava-se ínfima frente ao laço que era constituído entre elas. E o tempo passava e a mulher sentia que já era possível admirar ao longo do horizonte o que se chama amor.
Mas a mesma mulher também morreu por inteira em um só dia. E nesse dia  as palavras cessaram, a alegria deu lugar a tristeza, tudo virou pó e as lembranças imperecíveis.
A outra mulher se foi e a mulher voltou a sentir só e unicamente o gosto da solidão. As horas estagnavam novamente e sobre o tédio a mulher insiste dia após dia em acordar, mesmo desconhecendo o significado desse ato.
Ela disse adeus e do outro lado do telefone a mulher calou-se. A lágrima escorrendo pelo rosto, caiu no chão, encerrando uma história de pré-amor, com uma despedida abafada pelo silêncio da poesia da paixão adormecida, quiçá enterrada.

- Merlin 


Na Vitrola: Ela disse Adeus - Paralamas do Sucesso

sábado, 8 de janeiro de 2011

Gosto de Pecado

Hoje acordei com um gosto molhado na boca, era gosto de pecado, mas não parecia errado. Isso porque nosso maior pecado é não saber quem somos e o que sentimos, pior que isso, é não termos a audácia de investigar, descobrir. Acordei, mas não conseguia levantar. Tudo estava embaralhado na minha cabeça, não sei se sonho ou realidade. Ouvia vozes ao meu redor, mas elas eram mudas. E o seu cheiro inebriante se apoderava do meu espírito.
   Eu sonho demais, escrevo demais, fantasio demais, o amor é muito pouco para mim. Eu preciso de um encontro entre almas, preciso me transportar, preciso perder o fôlego. Eu preciso da loucura de estar com você, mesmo quando não estou. Não, eu não preciso, eu necessito. Eu quero sentir os pés fora do chão, mas eu não quero voar, quero me transportar para um outro mundo, um mundo que não seja o meu. Eu quero a insensatez, o que não posso tocar, o que não é sempre certinho. Eu quero me embriagar entre as curvas do seu corpo, eu quero o que não posso, quero ri alto no silêncio e chorar baixinho no meio da multidão barulhenta, lágrimas de felicidade por ver seu rosto entre tantos outros.
   Rabisquei uma poesia, ouvi uma música, olhei aquela foto, senti você, mas sei que isso não é só saudade. Eu penso, minha imaginação brinca pelo meu quarto, meu feudo. Sozinha, deitada, sentada, converso com o livro. Ele me diz coisas que nunca ouvi e, de repente encontro algumas respostas e outras perguntas. Eu ainda acredito que as perguntas dizem muito mais que as respostas. As respostas finalizam os assuntos, as perguntas iniciam, investigam, descobrem.
   Acabei de ver você na minha vida, sim era você. Era nítido seu rosto, suas expressões, seu sorriso lindo quando me ver, seu olhar penetrante. Comecei a acreditar que pode existir uma outra verdade, novas verdades, verdades inventadas, verdades fingidas, verdades que não podem ser contadas, verdades que não precisamos dizer, verdades verdadeiras e a minha verdade espelhada em você.
  Fico aqui teorizando tudo, querendo uma tese para cada movimento, para cada ação sem explicação. Nenhum sentimento pode ser de fato expressado, nós sempre sentimos mais ou menos do que falamos, do que deixamos os outros perceberem, do que mostramos, das nossas pequenas amostras diárias, noturnas. E do meu mundo olho para você e não me sinto só, experimento tudo, doce e salgado e também o amargo, o azedo. Mas o gosto que fica no final é apenas o do seu cheiro que não sai mais de mim.


- Merlin

Na Vitrola: Vida Real - Engenheiros do Hawaii