sábado, 15 de janeiro de 2011

Bela Adormecida

A mulher viveu toda sua vida em um dia. Ela que antes quase se entregava adormecida em meio ao tédio do mundo, naquelas palavras viu cor. E as cores reproduziram-se e formaram um arco-íris.
As palavras eram da outra mulher, uma mulher pura, límpida, na corda bamba entre a inocência e a ingenuidade. Uma estava no norte e outra no sul, mas ambas seguiam, prosseguiam, juntas, lado a lado. 
As primeiras palavras multiplicaram-se e refletiram-se em sorrisos, conversas intermináveis, madrugadas no telefone, a sensação de tocas na paixão, fazer amor mesmo em outra cidade, dividir e construir planos, descobrir que ainda pode-se sonhar, ver de perto a possibilidade de amar.
A mulher não via o rosto da outra mulher, via a cor da sua alma. A distância tornava-se ínfima frente ao laço que era constituído entre elas. E o tempo passava e a mulher sentia que já era possível admirar ao longo do horizonte o que se chama amor.
Mas a mesma mulher também morreu por inteira em um só dia. E nesse dia  as palavras cessaram, a alegria deu lugar a tristeza, tudo virou pó e as lembranças imperecíveis.
A outra mulher se foi e a mulher voltou a sentir só e unicamente o gosto da solidão. As horas estagnavam novamente e sobre o tédio a mulher insiste dia após dia em acordar, mesmo desconhecendo o significado desse ato.
Ela disse adeus e do outro lado do telefone a mulher calou-se. A lágrima escorrendo pelo rosto, caiu no chão, encerrando uma história de pré-amor, com uma despedida abafada pelo silêncio da poesia da paixão adormecida, quiçá enterrada.

- Merlin 


Na Vitrola: Ela disse Adeus - Paralamas do Sucesso

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