O telefone tocou e era ela. Pensei se atenderia. Atendi. Ela falava, mas ainda não saia nada da sua boca. Ela acostumou-se a fugir do que sente e eu a não dizer o que sinto. No entanto, agora quero gritar ao mundo o que bate no meu peito, mas não há mais ninguém sentado na plateia.
O som surge entre o amargo que me tocava o ouvido. Ela diz não, não para mim, mas para o nosso amor. Um amor prematuro que foi abortado antes de se tornar feto. O meu amor é sem graça, sem sal, possui apenas uma única capacidade - ferir.
Ela repetiu tantas vezes que repudiava o meu amor tardio que os ecos dançavam pela minha alma e me acordam todas as noites quando tento sonhar. Eu já não sei a colocação desse “adeus”, já que este embaralhou-se com tantas outras despedidas, mas sinto que este foi o último. Eu sei, ela sabe.
Andei sem rumo, já não sabia onde estava, procurava por mim entre as lágrimas que tomaram como residência meus olhos. Quis transformar o vinho do cálice no sangue que pulsa forte no meu coração e abastece o meu amor, daí beberia a garrafa inteira. Mas a única coisa que ganhei foi a ilusão de tê-la diante dos meus olhos e não poder tocá-la, senti-la em mim.
Agora ela reside nos quatro cantos do meu quarto, no laranja do pôr-do-sol, no branco límpido da lua, no amarelo dos girassóis, no brilho sem esperança do meu olhar, no toque das minhas mãos, em cada parte vibrante do meu corpo, no vermelho inflamado do meu coração, na essência de quem sou. Ela quer ir embora, mas não vai. Confusa, ela erra as palavras, experimenta o silêncio, me presenteia com a dúvida.
Perdida nessa estória, que está sempre disposta a mais uma versão e que foge de um fim, eu corro de mim mesma, fujo de mim mesma, minto para mim mesma. E todas as noites quando fecho os olhos, sinto o cheiro dela acalentar meu espírito, acalmar meu coração e novamente volto a amar. Eu pertenço a ela como as ondas pertencem ao mar, elas vão, mas sempre voltam.
- Merlin
Na Vitrola: Ecos do Ao - Lenine
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